VENCE-DOR
Há dias em que olho para trás e penso que podia ter feito melhor. Que falhei aqui ou ali. Que a educação dos meus filhos podia ter sido mais firme, mais leve, mais isto ou mais aquilo.
E depois há dias como o de hoje.
Hoje faz um mês que a avó do meu João Pedro e do meu Rafinha partiu. Um mês. Parece pouco tempo no calendário, mas foi um mês inteiro de aprendizagem emocional, de silêncio, de lágrimas, de dor e de coragem.
Foi tudo demasiado rápido. Inesperado. Um choque. Um murro no estômago para todos nós. A vida, quando quer, sabe ser amarga.
O João Pedro sentiu a dor de imediato e extravasou-a. Falou da revolta, do choque, da vontade de ir embora também. Do cansaço de sentir. E eu fiz o que soube: dei amor. Dei calma. Dei paciência. Falei-lhe ao coração, com as palavras imperfeitas de uma mãe que também estava a sofrer, mas que precisava de ser chão firme para toda a família.
O Rafael é mais como eu. Sofre para dentro. Fala pouco. Nunca quer ser mais um peso. E por isso exige outro tipo de atenção: mais silêncio, mais presença, mais cuidado nos gestos pequenos. Dei-lhe o que pude. Com amor, sempre.
Foi um mês em que o trabalho ficou, conscientemente, em segundo plano. O Natal e a passagem do ano ajudaram. A prioridade era óbvia: tentar chegar mais cedo a casa, estar com os filhos, partilhar a dor, presença. Não há sucesso profissional que compense a ausência quando a vida abana.
Falei muitas vezes com o João Pedro sobre continuar a estudar para os testes e exames. Sobre ocupar a cabeça. Sobre honrar aquilo que a avó desejava para ele. E a verdade é esta — sem exagerar nada — ele foi extraordinário. Perdemos a assistente pessoal um pouco antes deste acontecimento. Ele faltou a aulas. Estudou em circunstâncias difíceis. Estudou em dor. Mas estudou. Superou obstáculos reais.
E ser um VENCEDOR é isso mesmo: vence-a-dor. Nunca o nome fez tanto sentido.
A dor não desapareceu. Não vai desaparecer. Mas hoje vejo o João Pedro diferente : cresceu e tem mais consciência.
A compreensão dura de que a vida continua, quer queiramos quer não. E que um dia também será a nossa vez de partir — e convém ir com o nosso legado realizado.
No caso dele? Talvez livros. Talvez jornalismo. Talvez ajudar animais. Ainda não sei. Nem preciso de saber. O que sei é que está motivado. Vivo. Presente. A avançar.
Hoje não vejo um miúdo frágil. Vejo um lutador. Um vencedor.
E hoje, sim — hoje sinto-me profundamente orgulhosa do filho que estou a criar. 🤍
