A infância no princípio do sec. XXI

Gostaria tanto quanto possível que o JP tivesse uma infância parecida com a minha. Inevitavelmente sei que não a terá. Será muito diferente.
O concelho onde morava e ainda moro era arredores longínquos da grande capital. Existiam quintas. Respirava-se ar puro. Ia comprar leite para a família ao final do dia, acabadinho de mugir da vaquinha e levava uma moedinha no bolso. Divertia-me com brinquedos em segunda ou terceira mão dos meus irmãos. Brincava com terra, ia de bicicleta para todo o lado.
Para a escola era a pé, levada pelo avô, só até atravessar a estrada. Depois sozinha ou com coleguinhas. Se chovesse nada se alterava. A pé na mesma. A saltar pocinhas. As doenças curavam-se a maioria espontaneamente. Os Verões eram tórridos e nadávamos em tanques das quintas dos amigos ou íamos de bicicleta para a praia, todo o dia com algumas sanduiches no saco, fruta e sem fator de proteção solar.
Agora estamos dentro da grande capital. Tudo se pega. Bairros intermináveis, surgindo a cada instante. Para ver vacas temos de ir a uma quinta pedagógica. Para ir à praia levamos carro e não temos onde estacionar. Mas moro a menos de 2 kms do sítio onde sempre morei…
Não me imagino com tempo para levar o JP a pé para a escola. E moramos mais perto do seu colégio do que eu morava da minha escolinha primária. Adoro vestir-lhe roupas bonitas. Leio em revistas as classificações pedagógicas dos brinquedos. Escolhi criteriosamente a cadeirinha mais segura para o carro. Eu nunca usei uma…
Gosto de beneficiar da múltipla hipótese de escolha da zona de Lisboa e ir ver um teatrinho ou concerto para bebés…
E fico a pensar…como podia a infância dele ser parecida com a minha ? Que gosto terá? Conseguirei algum dia deixá-lo a brincar sem vigilância na rua ? Conseguirei ter uma atitude descontraída como a que os meus pais tinham ?
Em criança eu seria como uma roseira que floresce e lançava o meu perfume no ar, nunca me tendo preocupado se alguém o ia cheirar ou não. E assim era 100 % feliz.
Hoje penso, se conseguiria voltar àquele mundo tão simples ? E o JP, sentir-se-á tão leve e desprendido, como eu me senti? Será que atualmente conseguiria viver em harmonia no Portugal daqueles tempos? Porque será que quando nos tornamos adultos precisamos de tanto, para nos sentirmos felizes ? E porque nos tornamos tão exigentes, esquecendo o essencial ?

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8 comments

  • paidopedro

    Junho 4, 2007 at 11:49 pm

    óptima reflexão. este país realmente mudou muito e a simplicidade e até a liberdade que tivemos nas nossas infâncias não seriam possíveis nos dias de hoje. o mundo está mais complexo. ainda bem que não perdeste de vista o essencial, que afinal é tão pouco… acho que os nossos filhos nos ajudam a distinguir aquilo que realmente tem interesse daquilo que é supérfluo.

    1 beijo

  • Smas

    Junho 5, 2007 at 1:08 am

    TEnho pensado tanto na minha infância nos últimos tempos e este post é muito parecido emtermos da liberdade com um que tenho em draft mas que não está como eu quero e a inspiração ultimamente não abunda.
    Os tempos evoluem e as exigências são cada vez maiores, mas acho que também conseguimos ser felizes e fazer os nossos filhos felizes!
    Bjs

  • Luisa Rey

    Junho 5, 2007 at 11:14 am

    pierdo el tiempo pensando en lo esencial
    que a veces dejo pasar.
    ¡cuántos instantes he ignorado ya
    capaces de haberme cambiado!

    Estas palavras fazem parte de uma musica com muita importancia para mim e que traduzem a forma como me sinto e pelos vistos como te sentes……o que está escrito neste post podia seguramente ser escrito por mim.

    Beijinhos
    Luísa Rey

  • Vanessa

    Junho 5, 2007 at 12:59 pm

    Também eu noto diferenças grandes desde a minha infância até hoje.
    Lembro-me que no Verão ficavamos a brincar na rua até à meia-noite sem termos de nos preocupar com nada. Não havia tanta violência e as próprias brincadeiras eram mais simples e mais criativas. Quando não havia um determinado brinquedo, arranjava-se forma de o fazer. Os jogos de rua eram uma coisa fantástica. Como tenho saudades desse tempo.
    Gostava muito que o Guilherme passasse por essa época.
    No que toca aos brinquedos,a cho que hoje não estimulam a criatividade de ninguém. Poderão estimular o cérebro, mas por outro lado torna as crianças mais individualistas e muitas vezes egoístas. ESpero conseguir incutir bons valores ao meu filho. Assim como todas as mães da nossa geração.
    Beijo grande

  • tixa

    Junho 5, 2007 at 2:19 pm

    No chamado “nosso tempo” as coisas eram tão mais simples…e tenho muita pena que um dia os meus filhos não possam ter as mesmas vivências que ei tive…mas é a vida…ou os tempos modernos como lhes chamam..
    Um bj enorme
    Tixa

  • Mocas

    Junho 5, 2007 at 10:42 pm

    Lembro-me de um local onde morei (e que ainda adoro) ter uma torneira daquelas de ferro, espetada numa zona de terra batida. Apenas isso … onde hoje há esplanadas, uma piscina .. um hotel.

    Apesar de tudo, apesar de concordar em absoluto com o que dizes … estou convencida (ainda) que a leveza e desprendimento são a essência da infância, se esta é vivida com amor.

    Um dia o teu JP vai ter certamente muito boas recordações e, se calhar, daqui a trinta anos está a escrever ou a pensar algo parecido 🙂

    Um beijinho

    Mocas

  • GE

    Junho 6, 2007 at 1:02 pm

    Que bons tempos, tenho imensas saudades desse tipo de vida. Hoje é dia os nossos petizes gostam mais de ver tv, jogar playstations e outras coisas do genero. Eu vou ver se agora qd mudar de casa, para um aldeia, consigo por no Pedro esses hábitos de andar na rua, saltar, subir ás arvores ( acho que ainda me vou arrepender de dizer isto, eh eh eh)

    Bjinhos e bom feriado!

  • Docinho

    Junho 7, 2007 at 8:26 am

    Li cada palavra e dei por mim a pensar tanto nisso… não asci perto do campo… mas ia a pé para a escola… brincava na rua… hoje… isso parece-me tão assustador : (

    Beijos alguns anos depois

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